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Superando os impasses da democracia no Brasil - Leonardo Avritzer



Os parâmetros principais a partir dos quais o impasse da democracia no Brasil se manifesta são: de um lado, temos uma conjuntura de esgotamento da relação entre o Partido dos Trabalhadores e o presidencialismo de coalizão, que parece ter uma capacidade limitada de funcionar. O dilema em que a presidenta Dilma Rousseff se encontra depois das manifestações de 15 de março, 15 de abril e 16 de agosto de 2015 e a aceitação do pedido de impeachment de seu mandato, por Eduardo Cunha resumem bem essa relação. De um lado, o desgaste devido à perda de legitimidade causada por negociações próprias ao presidencialismo de coalizão caem no colo da presidenta desde junho de 2013. Por outro lado, o PMDB tornou-se independente da presidenta, o que tornou o sistema ainda mais instável. O ano de 2015 foi marcado por esse duplo conflito, que opôs PMDB e governo, e mostrou os limites do presidencialismo de coalização.

Indubitavelmente, a questão central do presidencialismo de coalizão é como produzir governabilidade, mas resolvê-la implica em enfrentar práticas políticas da coalizão que dificultam a produção dessa mesma governabilidade. Meu argumento é de que a instabilidade de hoje, que pode, é certo, ser em parte atribuída à inabilidade da presidenta, tem também um componente estrutural e está, sim, ligada aos diferentes escândalos de corrupção nos quais o Partido dos Trabalhadores esteve envolvido na tentativa de estabilizar uma ampla coalizão política no Congresso. Esta instabilidade está também ligada à maneira como o PMDB passou a operar na política brasileira a partir de 2013. Para este partido, a ocupação progressiva de todos os nichos de poder com a consequente falta de estabilidade do próprio exercício da administração pública não é um problema – pelo contrário, seria a solução. A dificuldade, no entanto, é que a opinião pública não vê a “peemedebização” da administração pública dessa mesma maneira. As negociações infindáveis por cargos públicos que atingem todos os ministérios oferecem uma sensação de vale-tudo que hoje cai na conta da presidenta e do PT. Por outro lado, a governabilidade também não é conseguida dessa forma, já que o PMDB disputa todo o tempo cargos entre as suas facções e não consegue estabilizar a relação entre governo e Congresso Nacional. Se essa constatação é verdadeira, há um limite claro na relação entre o PT e o presidencialismo de coalizão que afeta a governabilidade.

A segunda dimensão da análise é o problema apontado por Nobre e que exige uma atualização temporal para as manifestações de 2015. Para o autor, o PMDB é o problema da democracia brasileira, e o seu crescimento travará toda a agenda progressista do Congresso e da sociedade civil.142 A eleição de Eduardo Cunha tende a confirmar parcialmente esse diagnóstico. Se, de fato, o Congresso Nacional permanecer com a atual configuração e com um líder que vai a uma CPI – como Eduardo Cunha foi em 11 de março de 2015 – para se defender de forma demagógica, apesar de acusações evidentes de corrupção que não são as primeiras, provavelmente haverá uma acentuação da crise política. As chamadas “pautas-bombas” apontam na mesma direção.

É verdade que, no momento em que escrevo as partes finais deste livro, o centro da crise política na sua dimensão pública passou a ser a insatisfação da classe média, principalmente da paulistana, com o governo Dilma Rousseff e uma insatisfação generalizada com Eduardo Cunha, expressa na pesquisa Datafolha de 29 de novembro de 2015, em que 81% da população se manifestou favorável ao afastamento do presidente da Câmara. No entanto, parece pouco provável que, se a crise continuar tendo como um dos seus centros a questão da corrupção, vá poupar o PMDB . Ainda assim surge, no momento em que este livro está sendo escrito, a hipótese de uma rearticulação do sistema político brasileiro em torno de Michel Temer, o vice-presidente em caso de impeachment. Certamente, esta seria uma forma de aprofundar os impasses da democracia brasileira, tornando o problema da legitimidade ainda maior. As denúncias contra Eduardo Cunha são muito mais graves do que as existentes contra outros membros do sistema político – e tudo indica que elas vão muito além da Petrobras; e envolvem votações de medidas provisórias em diversas áreas. Deste modo, o atual presidente da Câmara dos Deputados e o vice-presidente da República constituem o centro de uma articulação peemedebista, que torna a governabilidade muito difícil.

Assim, o argumento de Nobre é só parcialmente correto. A constituição de centro conservador sob a hegemonia do PMDB no Congresso aponta tanto para o auge quanto para o declínio do peemedebismo, e pode até mesmo apontar para a passagem do impasse a uma grave crise de legitimidade. Ainda que pareça pouco provável que o partido vá ser poupado ao final desse impasse, com a aceitação, por Cunha, do pedido de impeachment da presidenta, talvez esteja em seus momentos finais. Não parece claro de forma nenhuma que o peemedebismo poderá se estabilizar como forma hegemônica de fazer política no Congresso, tal como está estruturado hoje. Nem as instituições de controle, como ficou patente na lista de Janot, nem a sociedade civil que está se manifestando vão tolerar tal fato. Assim, uma solução dos impasses da democracia a favor do peemebismo, ou do vice-presidente, Michel Temer, parece improvável e poderia jogar o país em uma crise profunda, pois não resolveria o problema da corrupção e da utilização indevida da máquina pública.

A terceira dimensão a ser analisada são a participação e as manifestações públicas que voltaram com força nos meses de março, abril e agosto de 2015. Ocorreu o fim de um longo período que vai de 1964 a 2013, no qual a direita brasileira renunciou à mobilização popular. Entre 2013 e 2015, houve diversos momentos de polarização da mobilização social no Brasil. Ainda durante as manifestações de 2013 assistiu-se tanto a momentos com grande mobilização e agendas de esquerda, como a reforma urbana e a democratização das obras da Copa do Mundo, quanto a pautas conservadoras relacionadas a questões morais. O mesmo panorama se vislumbrou em 2014, com diversas mobilizações conservadoras e progressistas, algumas ocorridas durante a campanha eleitoral. E, finalmente, repetiu-se a mesma dinâmica no mês de março de 2015, mas com uma diferença fundamental: as manifestações conservadoras contra o governo tiveram uma dimensão muito maior do que as mobilizações do campo histórico participativo. Isso ocorreu tanto em março quanto em agosto. Como entender essa evolução ou involução da participação?

Temos, em primeiro lugar, de abdicar de uma análise simplista, como a de Paulo Arantes, da participação. Nem todas as manifestações são revoltas populares, nem todas as revoltas populares são contra o capitalismo e a favor da democracia. Na verdade, a grande questão da mobilização social, como dizia Alberto Melucci,144 é quem estabelece o campo de conflito em torno do qual se dá a mobilização social e quais são os pontos principais dessas mobilizações. No caso do início de 2015, temos uma mudança de orientação, com o governo e a corrupção ocupando o seu centro. Ainda assim, é importante apontar para a seletividade das manifestações contra a corrupção, que insistem em colocar o Executivo no centro de um escândalo que atinge mais de 10% dos membros do Congresso Nacional. Nesse sentido, se ocorreu uma revolta com tonalidade progressista em 2013, o que há em 2015 é uma contrarrevolução conservadora com presença nas ruas. Se em 2013 o centro da insatisfação eram as ruas, neste momento o ponto de destaque reside no complexo midiático com as ruas como mero acessório retórico. Mesmo assim, a pergunta fundamental é como as forças progressistas no Brasil podem retomar a iniciativa, e a resposta é: com uma agenda progressista em relação à corrupção.

A questão que aparece como central neste caso é: por que o campo participativo que se mobilizou em 2013 por uma agenda de mudanças não se mobilizou fortemente no começo de março de 2015? Ofereço duas respostas baseadas nas discussões dos capítulos anteriores: as negociações para nomeação de cargos políticos com o Congresso Nacional e os casos de corrupção desmobilizam a base do governo progressista no Brasil. O campo progressista quer de fato menos corrupção, é menos envolvido em corrupção do que os setores conservadores, que historicamente levantam a bandeira da corrupção apenas em momentos em que isso abala a correlação de forças no país. No momento, em que Eduardo Cunha aceitou o pedido de abertura do impeachment da presidenta, houve forte convergência em torno do governo e renovação da sua capacidade de mobilização. Isso mostra que certa desmobilização do campo participativo ao longo de 2015 pode ter sido provisória.

Em defesa do governo progressista, o que podemos dizer é que sua postura criou uma forte institucionalidade de combate à corrupção. A reforma administrativa da Polícia Federal em 2004, a ampliação do número de delegados na PF, a elaboração da ideia de operação integrada com o Ministério Público e a Receita Federal são avanços importantíssimos deste período. Mas não serão capazes de mobilizar os movimentos sociais e um campo de esquerda no país se os políticos do Partido dos Trabalhadores continuarem alvos de operações importantes dessa mesma Polícia Federal. Neste sentido, foi muito positivo o tema em torno do qual se deu a rearticulação do PT em 2015, a não salvação de Eduardo Cunha no Conselho de Ética na Câmara. Aqui se pode notar a profundidade do dilema petista: estabilizar o mandato de uma presidenta que não consegue produzir governabilidade ou retomar a tradição de um partido que não transige nas questões da corrupção. O posicionamento da bancada do PT contra Cunha, anunciado em 2 de dezembro de 2015, teve o papel de retomar a capacidade de mobilização do partido no parlamento, nas ruas e nas redes sociais.

O momento atual é de profunda reorganização do governo e do Partido dos Trabalhadores para que volte a ter legitimidade entre os seus principais apoiadores e entre os setores progressistas e readquira a capacidade de ocupar o espaço público com uma agenda progressista, o que começou a ocorrer no momento em que o partido se posicionou contra Eduardo Cunha no Conselho de Ética. Somente com uma agenda contra a corrupção e pela reforma política que não seja contraditória com a ação dos seus parlamentares, o PT e o governo poderão recuperar a iniciativa em relação a mudanças positivas na sociedade brasileira. Esta seria a melhor saída para o impasse, que deveria contar com um apoio decisivo de outros setores políticos no Brasil. É possível que este seja um dos desfechos do processo de impeachment contra a presidenta, iniciado em 2 de dezembro de 2015.

Mas é possível pensar em outro cenário mais preocupante que pode eventualmente transformar os impasses da democracia em uma crise. Trata-se de um cenário no qual a corrupção deixa de ser uma questão de aprimoramento institucional e passa a ser uma pauta seletiva utilizada contra o governo e alguns partidos, ao mesmo tempo que outras suspeitas são amplamente ignoradas. Não tenho nenhuma dúvida que a Operação Lava Jato tem caminhado nesta direção. Evidências muito fortes contra o PSDB e em especial contra o senador Aécio Neves foram fortemente ignoradas, como foi o caso do depoimento do doleiro Alberto Yousseff acerca da lista de Furnas. Ao mesmo tempo, evidências completamente indiretas em relação a alguns políticos do PT, como Lindberg Farias e Gleisi Hoffmann, passaram a fazer parte da Lava Jato. O risco é que a Lava Jato se partidarize e coloque o Brasil em um cenário parecido com aquele de 1954 e 1964. E, por fim, mesmo no caso do PMDB, a operação Lava Jato tem sido fortemente seletiva em especial a respeito da participação do vice-presidente Michel Temer em desvios de recursos da Petrobras. No entanto, está evidente que o amadurecimento institucional do país com a ação decisiva do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal torna esse cenário pouco provável. A decisão do STF de aceitar o fatiamento da Lava Jato, transferindo investigações para outras varas da justiça federal, aponta no sentido de colocar limites à partidarização desta operação. A ação forte e decisiva do ministro do STF no caso Delcídio do Amaral aponta na mesma direção. A saída dos impasses da democracia implica punir culpados de casos graves de corrupção sem partidarizar suas ações ou estabelecer falsos contrastes sobre quem recorre ao financiamento ilegal de campanha que, tal como foi mostrado anteriormente, são todos os principais partidos políticos do país.

A ampla manifestação da classe média paulistana e de algumas outras capitais do país contra o governo em março de 2015 mostra o que há de problemático em uma estratégia midiática e não institucional de luta contra a corrupção que não aborde os problemas do sistema político. Ela tende a demonizar alguns atores políticos e ser fortemente acrítica em relação a outros. Apenas mudando regras do financiamento de campanha é possível pensar em uma solução contra a corrupção que satisfaça a cidadania brasileira no longo prazo, que é a melhor maneira de superar a crise atual.

A democracia brasileira é forte e pujante. Nos trinta anos que se completaram, no dia 15 de março de 2015, desde a saída dos militares do poder, o Brasil construiu uma forte cultura democrática. O novo papel do Judiciário, a maturidade nas relações entre os poderes e principalmente os resultados substantivos gerados pela democracia brasileira, como a estabilidade econômica e a diminuição da desigualdade social, reforçam essa visão. Os avanços não permitiram, no entanto, que a democracia se livrasse de algumas das suas mazelas históricas, entre as quais, a corrupção.145 Vale a pena acrescentar que a sociedade, assim como o sistema político, tem as suas máculas, como por exemplo, uma classe média fortemente acostumada a privilégios, que hoje tem que disputar vagas em universidades públicas e se posicionar pela melhora dos serviços de saúde. Assim, existe o espaço para uma classe média progressista. Consolidar este espaço é fundamental para desenvolver a política progressista no Brasil.

Duas questões se colocam para a democracia brasileira hoje. A primeira é evitar uma expressão de intolerância, que tem se manifestado tanto na política quanto na sociedade. Estamos muito longe do tipo de brasileiro que Sérgio Buarque de Holanda chamou de homem cordial, provavelmente um mito, já que o país expressa tantas formas de intolerância. Mas é inegável que pontes importantes foram construídas entre os diferentes setores da sociedade brasileira pela nossa jovem democracia. Pontes entre brancos e negros, ricos e pobres, membros de diversas denominações religiosas, entre outros grupos. Evitar que estas pontes sejam rompidas é fundamental para a democracia, que exige como cenário para o bom funcionamento das instituições políticas uma cultura de tolerância e pluralidade valorativa.

Em segundo lugar, é necessária a manutenção de algum consenso procedimental em um momento tão grave. No momento em que este livro está sendo concluído, uma grave violação de procedimentos democráticos ocorreu na eleição da comissão do impeachment na Câmara dos Deputados. Foi estabelecido o voto fechado, que contraria o princípio da publicidade, parte fundamental da herança da Constituição de 1988. Este procedimento terminou suspenso pelo STF, mas o fato de ele ter sido posto em prática coloca em dúvida, neste processo, a manutenção de procedimentos democráticos.

O impasse político que o Brasil está enfrentando apresenta diversos desafios para a qualidade da democracia no país. De um lado, o país precisará romper com os elementos de intolerância que se manifestam na oposição, seja aquela que está no Congresso e a que se manifesta nas ruas, como nos grupos de apoio ao Governo. De outro, para ultrapassar esse período de impasse na democracia brasileira, é necessário tratar os problemas com soluções institucionais, tal como a democracia brasileira, desde 1988, tem atuado. O processo de impeachment em curso coloca amplos desafios em ambas as direções e, eventualmente, se não for conduzido de forma procedimentalmente adequada, poderá transformar este impasse em uma crise da democracia. A saída do impasse atual da democracia brasileira implica estabelecer um forte acordo procedimental sobre as formas de saída da crise e, ao mesmo tempo, barrar todas as formas de intolerância e negação de direitos que têm se manifestado na sociedade. Apenas a produção de soluções por meio das instituições políticas permitirá que a democracia saia mais forte de cada um dos impasses analisados neste livro.

In: AVRITZER, Leonardo. Impasses da democracia no Brasil 1. ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

Crise da ideologia




A crise de 2008 pareceu ser, a princípio, um excelente momento para a reconstrução de uma prática e de um pensamento de esquerda no mundo. Afinal, poucas crises na história do capitalismo foram desencadeadas por elementos tão ideológicos do debate entre a direita e a esquerda.
A crise de 2008 foi desencadeada por dois elementos, ambos obrigatórios na cartilha do assim chamado “neoliberalismo”: a desregulamentação dos mercados financeiros e a ideia de que o mercado pode se constituir na entidade reguladora do seu próprio risco.
O mercado financeiro norte-americano foi fortemente regulado entre 1933 e o começo dos anos 90 por um ato do presidente Roosevelt poucas semanas depois de chegar ao poder, o chamado “Glass–Steagall Act”, que separou bancos de investimentos de bancos comerciais, limitou a alavancagem nos mercados financeiros e, principalmente, limitou o tamanho dos bancos, tornando-os regionais.
Com isso, estabeleceu-se uma relação entre mercado financeiro e Estado nos Estados Unidos, de acordo com a qual o mercado financeiro podia gerar lucros, mas não era capaz de desestabilizar o Estado ou a economia do país. Este equilíbrio prevaleceu até os anos 90.
A doutrina político-econômica que hoje denominamos neoliberalismo combateu fortemente desde a metade dos anos 90 a regulação dos mercados financeiros e defendeu a ideia que os mercados são capazes de regular o seu próprio risco.
Aí está a origem da crise de 2008, que, neste sentido, foi eminentemente política. Não só a desregulamentação permitiu que bancos americanos e europeus assumissem enormes posições especulativas que colocaram em risco toda a economia mundial, como os instrumentos elaborados para a avaliação do risco se mostraram completamente inócuos.
Como afirmou o financista George Soros, a avaliação de risco parece ser um instrumento muito interessante. O problema é que ninguém sabe como fazê-la. Ou seja, todos aqueles que tentaram ancorar o seu risco em instrumentos produzidos por Wall Street e o mercado financeiro terminaram por ter fortes prejuízos, e a principal empresa de seguros dos Estados Unidos quebrou e teve que ser salva pelo governo americano.
Este constitui o pano de fundo do colapso financeiro de 2008, que abriu um conjunto de oportunidades para a esquerda, entre as quais, evidentemente, a de colocar uma nova ênfase na regulação econômica dos mercados financeiros pelo estado.
Hoje, quase cinco anos depois dos primeiros indícios da crise, é possível dividir a reação da esquerda à crise em dois momentos: um primeiro claramente negativo e um segundo mais positivo, ainda em construção, no qual o movimentos dos “Indignados”, na Espanha, e o Occupy Wall Street assumiram um certo protagonismo.
Ainda que seja muito difícil definir o que é a esquerda, eu sustentaria que o pensamento e a prática de esquerda tem dois grandes polos estruturadores: o primeiro é uma ideia de justiça, seja ela social ou distributiva; o segundo é uma crítica ao mercado que aponta para a necessidade de intervenções do Estado com o objetivo de regular ou coibir excessos gerados pela própria operacionalidade do mercado.
Concebida desta forma, não é difícil perceber que a suposta reconstrução de uma prática de esquerda na primeira fase da crise de 2008 acabou se pautando exclusivamente pelo segundo elemento.
Nas principais economias desenvolvidas, o Estado resgatou os seus mercados financeiros intervindo maciçamente neles. Foi o caso dos diferentes pacotes elaborados nos EUA – um primeiro pelo governo George W. Bush e um segundo pelo governo Obama.
Os dois pacotes que estão na raiz dos discursos tanto do Tea Party quanto do Occupy Wall Street foram pensados exclusivamente como resgate pontual do mercado financeiro.
O pacote do governo Bush chegou a ser uma distribuição de cheques de US$ 25 bilhões para os maiores bancos, e o pacote do governo Obama não foi muito diferente, já que nomeou o principal representante de Wall Street como seu Secretário do Tesouro.
O que ocorreu como resultado de uma política de resgate do mercado financeiro sem uma proposta de justiça foi o desastre que conhecemos: os bancos americanos se recuperaram e, ao mesmo tempo, quase 2 milhões de pessoas perderam ou estão a ponto de perder as suas casas para os bancos, o desemprego nos EUA ficou acima de 8% por quase dois anos e os dados sobre pobreza no país mais rico do mundo são chocantes.
Ou seja, as políticas do governo Obama levaram a uma recuperação do sistema financeiro sem levar a uma recuperação da situação econômica da população. Este é o pano de fundo do Occupy, é o início da segunda fase da reação da esquerda à crise.
O Occupy colocou na agenda política norte-americana as duas questões que são fundamentais para uma abordagem de esquerda no país. A primeira é a falta de legitimidade de Wall Street.
O movimento que ocupou um parque (não por acaso um parque privado) colocou em pauta o papel destrutivo jogado por Wall Street em relação às empresas industriais (uma questão que voltou à tona nas primárias republicanas deste ano). Também pôs em questão a falta de representatividade das ações do sistema financeiro em relação à maioria da população.
Enquanto uma parte da população americana se vê sem condições de ter uma aposentadoria digna ou está correndo o risco de perder a sua casa, as empresas de Wall Street operam com outra lógica: têm lucros estratosféricos, parte dos quais são revertidos aos funcionários, e prejuízos igualmente estratosféricos que são cobertos pelo governo federal ou pelo Banco Central. Daí o sentido do slogan do Occupy: nós somos os 99% que mostram a dicotomia entre os beneficiários do sistema financeiro e a população americana como um todo.
Em segundo lugar, o Occupy ressaltou a falta de representatividade do seu sistema político e das maneiras como o poder econômico e o poder político se associam em Washington.
O Goldman Sachs, principal banco de investimentos em operação nos EUA, praticamente dominou os últimos governos americanos, se pensarmos que Robert Rubin (Secretário do Tesouro de Bill Clinton), Henry Paulson (Secretário do Tesouro de George W. Bush) e Timothy Geithner (Secretário do Tesouro de Barack Obama) saíram dos seus quadros.
As políticas feitas por esses governos terminaram por convergir contra os interesses da maior parte da população americana. É quase impossível contrariar interesses do Goldman Sachs no interior do governo e/ou do Congresso. O Occupy pôs em evidência a falta de representatividade dos políticos ao levantar a bandeira da “democracia real agora”, um dos seus principais slogans.
Ao levantar o slogan da inclusão econômica e da democracia real, o movimento pôs em questão os dois principais elementos da relação entre sistema econômico e sistema político tal como praticados nos Estados Unidos e com os quais o próprio Obama não foi capaz de romper.
Ao mesmo tempo, politizou a disputa entre direita e esquerda e mostrou as vulnerabilidades do tipo de liberalismo praticado nos EUA. A desocupação do Zuccotti Park talvez tenha sido a melhor expressão da privatização do público no país. O movimento ocupou um parque privado que tinha entre as suas regras a do funcionamento por 24 horas (todos os parques públicos nos Estados Unidos fecham durante a noite).
No entanto, à medida que o movimento se fortaleceu, começaram as pressões pela desocupação do parque. A empresa proprietária mudou o estatuto, proibindo acampamentos no seu interior. Em seguida, a polícia desocupou o parque na madrugada do dia 14 de novembro de 2011. Assim, o próprio ato de desocupação mostra a natureza não-pública do modo como a política vem operando nos Estados Unidos.
O movimento, que se estendeu pelos EUA atingindo principalmente a Califórnia, acabou se associando neste ano às primeiras vitórias da esquerda em eleições na Europa desde o início da crise.
A crise europeia é uma continuação piorada das mudanças implementadas pelo neoliberalismo nos EUA, com um adendo: a situação do euro. Se o pressuposto do neoliberalismo é a despolitização da regulação e do controle do risco na economia, o euro foi um passo à frente em relação a essa concepção. Ele representa a tentativa de dissociar moeda e soberania política.
O euro foi criado a partir da ficção de que a estabilidade da moeda pode se desvincular da soberania do Estado ou dos Estados nacionais que a sustentam. Países com economias fragilíssimas, como a Grécia, até 2009foram considerados livres de qualquer risco para os mercados financeiros, o que os tornou capazes de emitir enormes dívidas.
No momento em que os bancos e os mercados se deram conta dos riscos, eles mesmos continuaram com a tarefa de inviabilizar economias como a grega, a portuguesa e a espanhola. O PIB da Grécia cai sem parar desde 2008 e o desemprego atinge um quarto da população.
Mas, o que é pior, o país perdeu completamente sua soberania no processo de estabilização coordenado pela União Europeia (leia-se Alemanha) e FMI. Os recursos da EU disponibilizados para a Grécia são depositados em uma conta-corrente controlada em parte pelas duas instituições. O governo grego não tem acesso a ela.
Todos esses fatos levaram à vitória da esquerda na Grécia e na França. A receita “Merkoziy”, que é austeridade nas contas públicas pela via do corte de gastos públicos, parece finalmente estar em crise. François Hollande tem hoje a possibilidade de coordenar uma resposta diferente para crise econômica que se abate sobre o continente.
Essa resposta tem que ser ao mesmo tempo econômica e política. Econômica, porque é preciso pensar em uma regulação que não permita aos bancos incorrerem nos prejuízos que geraram e depois apresentarem as contas aos seus respectivos Estados nacionais – tal como fizeram o BNP, o Daxia e agora o Bankia. E política, porque, evidentemente, a população europeia, assim como a norte-americana, não está mais disposta a tolerar as desigualdades geradas pelos processos de resgate que não se pautaram por nenhum critério de justiça.
Ou seja, hoje, com as eleições na Grécia e na França, com um possível colapso do governo de direita na Espanha e com o fortalecimento de movimentos como os “Indignados” e o Occupy, voltamos à questão clássica que levou a esquerda europeia ao poder no pós-guerra: como estabelecer uma relação entre intervenção estatal e valores igualitários?
A reconstrução da esquerda como alternativa política depende da elaboração de uma política econômica que exerça duas funções: por um lado, essa política tem que ser capaz de assegurar a estabilidade do sistema financeiro, mas este não pode ser um objetivo unicamente sistêmico. Essa estabilidade tem que ser compatível com o exercício pelo sistema financeiro de uma atividade econômica que produza resultados para a economia mais ampla.
Por outro lado, é preciso que os resultados da intervenção estatal sejam moralmente justos e politicamente igualitários, senão o próprio princípio da intervenção será questionado. François Hollande está certo em questionar Angela Merkel acerca dos custos sociais do pacto fiscal europeu. Mas, se ele quiser avançar mais, terá de ouvir os indignados sobre um novo modo de exercer o papel ativo do Estado.
Por LEONARDO AVRITZER